POR QUE MARIA SILVIA PULOU FORA DO BNDES ? ELA CONTA COMO E PORQUE







Temer Tentou Abusar Do BNDES? Com A Palavra, Maria Silvia

A sucessão de eventos negativos se deu de forma tão concentrada que os mais familiarizados com o tema podem facilmente classificá-la como inferno astral. O primeiro deles começou 39 dias antes do aniversário, em 12 de maio. Naquela manhã, policiais federais coletaram documentos na sede do aniversariante em questão, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), e levaram 39 de seus funcionários para depor, em investigações sobre possíveis irregularidades em empréstimos ao frigorífico JBS. Cinco dias depois, o país tomou conhecimento dos diálogos nada republicanos entre o dono da empresa controladora da JBS, Joesley Batista, e o presidente Michel Temer, envolvendo o banco. Mais nove dias, e Maria Silvia Bastos Marques pediu demissão da presidência da instituição, pressionada por empresários que exigiam mais crédito, funcionários enfurecidos com o que acreditaram ser pouco empenho dela em defendê-los após a ação da Polícia Federal (PF) e, agora suspeita-se, pressão política. Semanas depois, Temer causou desconforto ao confiscar para sua agenda uma reunião entre o novo presidente do banco, Paulo Rabello de Castro, e governadores, para faturar politicamente com empréstimos em negociação. No dia 20, quando o BNDES comemorava 65 anos, Joesley revelou ter sido informado pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima que Temer pressionou Maria Silvia para aprovar a transferência da JBS para a Irlanda, como queria sua controladora, o J&F.




A nefasta sequência mostra que paira sobre o BNDES um espectro antigo – a ingerência política nas decisões de financiamento e investimento. Paira sobre a instituição, também, um espectro mais recente – por mais que as decisões do banco possam ser técnicas e defensáveis, elas se amparam em políticas econômicas que podem ser enviesadas pelo pagamento de propina aos altos escalões do governo.

Empresários assumidamente corruptos contaram recentemente, em delações e depoimentos, de que forma políticas do BNDES foram usadas como instrumento de barganha de interesses privados espúrios – mesmo sem nunca envolver funcionários do banco. Emílio e Marcelo Odebrecht dizem ter pago R$ 64 milhões em doações eleitorais ao PT em 2010, para contar com a ampliação de uma linha de crédito para obras em Angola. Na conversa gravada com Temer, Joesley indicou incômodo com a atuação sóbria de Maria Silvia. Estava mal-acostumado com o período em que amealhou rapidamente R$ 8,1 bilhões para seus projetos. Na delação, Joesley afirma ter pago cerca de R$ 350 milhões em propina ao PT, combinada com o ex-ministro Guido Mantega, para que ele intermediasse os interesses do grupo no banco.

Maria Silvia Bastos Marques (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)

A sucessão de eventos negativos se deu de forma tão concentrada que os mais familiarizados com o tema podem facilmente classificá-la como inferno astral. O primeiro deles começou 39 dias antes do aniversário, em 12 de maio. Naquela manhã, policiais federais coletaram documentos na sede do aniversariante em questão, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), e levaram 39 de seus funcionários para depor, em investigações sobre possíveis irregularidades em empréstimos ao frigorífico JBS. Cinco dias depois, o país tomou conhecimento dos diálogos nada republicanos entre o dono da empresa controladora da JBS, Joesley Batista, e o presidente Michel Temer, envolvendo o banco. Mais nove dias, e Maria Silvia Bastos Marques pediu demissão da presidência da instituição, pressionada por empresários que exigiam mais crédito, funcionários enfurecidos com o que acreditaram ser pouco empenho dela em defendê-los após a ação da Polícia Federal (PF) e, agora suspeita-se, pressão política. Semanas depois, Temer causou desconforto ao confiscar para sua agenda uma reunião entre o novo presidente do banco, Paulo Rabello de Castro, e governadores, para faturar politicamente com empréstimos em negociação. No dia 20, quando o BNDES comemorava 65 anos, Joesley revelou ter sido informado pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima que Temer pressionou Maria Silvia para aprovar a transferência da JBS para a Irlanda, como queria sua controladora, o J&F.




A nefasta sequência mostra que paira sobre o BNDES um espectro antigo – a ingerência política nas decisões de financiamento e investimento. Paira sobre a instituição, também, um espectro mais recente – por mais que as decisões do banco possam ser técnicas e defensáveis, elas se amparam em políticas econômicas que podem ser enviesadas pelo pagamento de propina aos altos escalões do governo.

Empresários assumidamente corruptos contaram recentemente, em delações e depoimentos, de que forma políticas do BNDES foram usadas como instrumento de barganha de interesses privados espúrios – mesmo sem nunca envolver funcionários do banco. Emílio e Marcelo Odebrecht dizem ter pago R$ 64 milhões em doações eleitorais ao PT em 2010, para contar com a ampliação de uma linha de crédito para obras em Angola. Na conversa gravada com Temer, Joesley indicou incômodo com a atuação sóbria de Maria Silvia. Estava mal-acostumado com o período em que amealhou rapidamente R$ 8,1 bilhões para seus projetos. Na delação, Joesley afirma ter pago cerca de R$ 350 milhões em propina ao PT, combinada com o ex-ministro Guido Mantega, para que ele intermediasse os interesses do grupo no banco.

Mais grave ainda, pelo potencial explosivo sobre o mandato de Temer, é a possibilidade, levantada por Joesley, de o presidente ter pressionado Maria Silvia em nomes de interesses privados. Não há indício de que Maria Silvia tenha cedido à pressão – a transferência da empresa para a Irlanda foi vetada. Sem revelar a pauta, o banco confirmou apenas a ocorrência de uma reunião da executiva com o presidente da República. Desde que deixou o cargo, em 26 de maio, a economista optou pelo silêncio. Dada a gravidade do assunto, é fundamental que o país conheça sua versão. Sua breve passagem pelo banco foi ruidosa. Ao adotar maior seletividade na liberação de recursos, ela contribuiu para o desabamento dos desembolsos em 35% em 2016, ano já afetado pela crise. Os repasses a operações de crédito para micro e pequenos empreendedores, os que mais precisam dos empréstimos, caíram quase 50%.